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A infância em duas cores: rosa e azul

  Rosely Sayão

Uma leitora escreveu: "Estive no Shopping Eldorado neste sábado e fiquei muito incomodada com a configuração da loja de brinquedos PBKids, dividida entre "brinquedos de menina", decorada com a cor rosa, e "brinquedos de menino", azul por toda parte. Sou professora de educação infantil e sempre defendi o direito dos meus alunos de brincarem com os objetos que mais lhes interessassem. Quando eu era criança, carrinhos eram apenas carrinhos e ferrinhos de passar apenas ferrinhos de passar. Porém, de tempos para cá, tanto as fábricas quanto as lojas de brinquedos têm buscado demarcar fortemente os territórios das atividades femininas e masculinas, antes por meio das escolhas das cores e personagens da mídia e agora nominalmente. O que está acontecendo?"

Compartilho com o espanto de nossa leitora: muitas vezes, ao observar lojas de brinquedos, programas de televisão dirigidos a crianças e inclusive a orientação que muitos pais dão a seus filhos quando estes brincam, imagino que passei por algum tipo de túnel do tempo e fui parar mais ou menos na segunda metade do século passado.

Sim: já tivemos o tempo da divisão rígida de brinquedos para meninos e para meninas e isso valeu como regra até o fim da década de 50. Depois disso, com a contribuição de novas teorias educacionais e principalmente com a emancipação da mulher, pouco a pouco abandonamos essa atitude e passamos a permitir que as crianças escolhessem seus brinquedos sem grandes preocupações.

E não é que agora parece que estamos em movimento de retrocesso nessa história? Por que será?

Tenho algumas hipóteses. Uma delas é a imensa preocupação de alguns pais com a orientação sexual dos filhos. Sim, caros, muitos pais atualmente pensam desde muito cedo na possibilidade de o filho ou filha ter orientação homossexual no futuro.

Percebo isso ao ouvir perguntas preocupadas de pais e de professores de educação infantil a respeito de comportamentos que consideram "feminino" em meninos ou "masculino" em meninas; além disso, muitos pais perguntam também se o número de pessoas homossexuais tem crescido; finalmente, é cada vez maior a crença de muitos pais de que eles podem – e devem – determinar o futuro dos filhos por meio de atitudes que tomam quando estes são ainda pequenos.

Resumo da ópera: muitos pais e professores querem saber como evitar que as crianças de hoje se tornem homossexuais na vida adulta e, claro, o mercado de consumo capta esse anseio e transforma em ação. Essa minha conjectura faz sentido, não faz?

O que considero curioso nessa história é que, justamente quando atingimos na vida em sociedade um patamar considerável de luta contra preconceitos, construímos um mundo que – pelo menos no discurso – respeita a diversidade e incentiva a convivência com a diferença e, principalmente, quando a informação de que a homossexualidade deixou de ser considerada desvio ou doença é amplamente difundida, surge essa reação.

O que mais podemos e devemos fazer para que as crianças brinquem em paz, sem a interferência de nossos medos e preconceitos? A questão está aberta e o convite para a reflexão e sugestões está feito. Participe!

Rosely Sayão
http://blogdaroselysayao.blog.uol.com.br/