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Viver bem com pouco

  Andres Vera, Celso Masson e Luciana Vicária | Revista Época

Foi-se a era de esbanjar e ostentar. A nova ordem global impõe consumir com parcimônia e priorizar a recompensa emocional

No início do século XIX, quando a economia dos Estados Unidos ainda engatinhava em direção ao que viria a ser a maior nação capitalista do planeta, o escritor americano Henry David Thoreau (1817-1862) já questionava o consumismo desenfreado que tomara conta de seus conterrâneos.

Desiludido com os rumos da "terra das oportunidades", Thoreau trocou a vida na cidade por uma experiência de dois anos na Floresta de Walden, em Massachusetts. Em plena expansão da economia capitalista, ele buscava a simplicidade de viver em harmonia com a natureza. Nascia ali uma das primeiras vozes modernas a pregar a frugalidade. "Um homem é rico na proporção do número de coisas das quais pode prescindir", escreveu Thoreau no livro Walden, a vida nos bosques, obra em que ele relata seu período como eremita.

Quase 150 anos depois, o despojamento perseguido por Thoreau parece enfim estar na moda – inclusive no Brasil. Ele é motivado, em parte, pela crise financeira mundial. A atual escassez de crédito pode encerrar o ciclo de esbanjamento dos últimos anos e dar início a uma nova era de austeridade. Antes do estouro da bolha forçar um basta à extravagância, porém, outros filósofos do cotidiano se propunham a recuperar e atualizar teorias parecidas com as de Thoreau – e também com as de clássicos como os gregos Aristófanes e Epicuro. São ideias que propõem uma revisão radical das escolhas e dos hábitos de consumo. No lugar da gastança, o comedimento. "A frugalidade é uma maneira de recuperarmos coisas imateriais importantes que haviam sido perdidas: tempo, saúde e felicidade", disse a ÉPOCA o escritor e documentarista americano John de Graaf, autor do livro Affluenza: the all-consuming epidemic (algo como A epidemia do consumo total), ainda sem previsão de lançamento no Brasil. Affluenza é um trocadilho criado a partir de influenza, nome inglês do vírus causador da gripe. Segundo Graaf, o consumo também seria uma doença, caracterizada por "sintomas de ansiedade, dívidas e desperdício".

Antes que Graaf descrevesse o consumo como doença, a pressa já havia sido diagnosticada como um sintoma de desvio comportamental típico da nossa era. "Vivemos o delírio do tempo. Tudo tem de ser veloz. O processo e a reflexão são sempre pouco importantes", diz o filósofo Mário Sérgio Cortella, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. "A gente só faz o urgente, o importante fica para depois". Uma vacina contra essa mentalidade da urgência surgiu na Itália, em 1986. Foi quando alguns donos de restaurante italianos se uniram para barrar o avanço das redes de fast-food. Surgia assim o slow food, um movimento para resgatar os prazeres da mesa que iam se perdendo com as refeições rápidas e industrializadas. A ideia deu origem a uma filosofia de desaceleração. Em 2002, a cidade japonesa de Kakegawa se autointitulou a primeira cidade "slow" do mundo. A prefeitura lançou um manifesto com ideias para uma vida mais saudável – e devagar. A população de 118 mil habitantes foi conclamada a andar a pé, construir casas com bambu e papel e cultivar o hábito do tradicional chá japonês. A prefeitura também passou a tomar medidas para negociar a redução da carga horária dos trabalhadores da cidade. A lógica do slow food ainda serviu de exemplo para o conceito do slow travel (turismo sem pressa), que propõe conhecer menos destinos com mais profundidade, mergulhando na cultura local.

Lentamente, como é de esperar, o "movimento slow" avança para além da culinária e do turismo. "Quando olharmos para trás, vamos reconhecer que viver de maneira tão intensa e rápida não nos trouxe felicidade", disse em entrevista a ÉPOCA o escritor escocês Carl Honoré, um dos pioneiros dessa filosofia (leia trechos da entrevista na última página). Depois de escrever o livro Devagar (Editora Record), Honoré dedicou-se a investigar como as relações entre pais e filhos são afetadas pela velocidade do cotidiano. A experiência resultou no livro Under pressure (Sob pressão), que será lançado no Brasil em julho. "Gastamos muito dinheiro e tempo planejando atividades complexas para nossos filhos. Na realidade, seria melhor para eles – e para nós mesmos – simplesmente passar o tempo juntos", diz.

Dedicar mais tempo à convivência com os filhos ou amigos é uma das chaves dessa revisão de valores. "O importante é reunir os amigos, e melhor ainda se não tivermos nenhum motivo para isso", diz o empresário do setor de plásticos Paulo Marques, de 44 anos. Ele é um dos anfitriões de uma confraria informal que surgiu num prédio de classe média alta, no Morumbi, em São Paulo. As reuniões da "turma da laje", como os próprios se denominam, primam pelo requinte gastronômico, sem perder o espírito festeiro. Ao som de Tim Maia, bebem champanhe, uísque e cerveja. Os dez casais que participam da confraria aos poucos foram substituindo os jantares em restaurantes e as conversas em barzinhos pelo encontro no apartamento do vizinho. Numa das últimas reuniões, Rose, a mulher de Marques, que é designer de interiores, descobriu que uma das vizinhas assaria um cordeiro. Prontificou-se a levar o vinho e as taças. "Se eu saísse de casa para consumir isso, gastaria cinco vezes mais", diz João Carlos Mello, empresário do setor de energia, outro integrante do grupo. O custo-benefício não é, porém, a principal motivação para as reuniões. "Muitos daqui não têm família em São Paulo, e ficar perto dos amigos tira um pouco a impessoalidade da cidade", afirma Herbert Andrade, diretor-comercial do canal de TV Fox. O grupo também enumera outras razões, como a fiscalização da Lei Seca, o tempo perdido no trânsito e a distância dos filhos pequenos. "Nada melhor que ficar em casa durante o fim de semana. Só precisamos procurar alguma luz acesa pelo prédio", diz Marques.

Embora tenham escolhido o apelido de "turma da laje", os vizinhos de prédio do Morumbi poderiam ser chamados de "neoepicuristas". Epicuro de Samos (341 a.C.-270 a.C.) foi o filósofo que propôs uma vida de prazer como chave para a felicidade. Mas o prazer de Epicuro não é o dos excessos, como no hedonismo. O prazer a que ele se refere é espiritual, algo que se relaciona ao passado e se desdobra no futuro. O prazer imediato, na outra ponta, está associado ao materialismo e ao consumismo e, segundo ele, deveria ser evitado.

Epicuro dividiu os desejos em categorias. A primeira é composta dos "naturais e necessários" como a nutrição, o sono e a reprodução. Também entram nessa categoria o desejo de se proteger e o de ser feliz. Os desejos "frívolos", segundo Epicuro, seriam os não naturais e não necessários, como a ambição, a riqueza e a glória. A imortalidade ocuparia uma categoria particular, por ser um desejo irrealizável. Segundo Epicuro, o sábio satisfaz apenas aos desejos necessários, que exigem muito pouco. Para alcançar a liberdade e a paz como bens supremos, o indivíduo teria de renunciar a todos os desejos possíveis e vigiar-se contra as surpresas irracionais do sentimento, da emoção e da paixão. O objetivo é ter o corpo são, satisfazendo às necessidades básicas, e a mente sadia, para viver tranquilo e não ter o espírito perturbado. "O desejo é inimigo do sossego", dizia Epicuro. Para ele, a sociedade deveria aprender a usar objetos que criava, sem que eles a escravizassem. A mesma lição já havia sido ensinada por Aristófanes cerca de 500 anos antes de Cristo. Ele observou que os cidadãos atenienses se endividavam por não conseguir conter o desejo de consumir tecidos, joias e outros itens importados. A crise ética da Grécia democrática foi representada na peça As vespas, uma sátira sobre a má gestão do dinheiro público. Os cidadãos passaram a inventar processos nos tribunais para justificar o ganha-pão. "Eles viviam como vespas, à custa do poder público. Consumiam cada vez mais, embora a produção não avançasse no mesmo ritmo", dizia Aristófanes. A alavancagem grega levou à Guerra do Peloponeso – entre 431 a.C. e 421 a.C. – e a um vazio de valores. Parece estranhamente familiar, não? Antes da crise grega, a identidade do cidadão se confundia com suas posses. "Ele era o que consumia", diz o filósofo Roberto Romano, professor titular da Unicamp. Com a escassez causada pela guerra, houve uma revisão de valores. Como parece acontecer agora.

A administradora Valéria Soares, de 42 anos, acaba de se mudar para sua casa nova, no Tatuapé, em São Paulo. O bairro é o mesmo, mas a rua agora é calma e silenciosa. A casa não está mobiliada, mas Valéria não está com pressa. Desde que percebeu que sua agenda só tinha espaço para o urgente – e que o importante ficava sempre para depois –, ela passou a descomplicar a vida. Começou diminuindo o ritmo de trabalho, que às vezes chegava a dez horas por dia. Passou também a dedicar mais tempo a si mesma. Matriculou-se em cursos gratuitos de bricolagem em lojas de material de construção. Aprendeu a usar serras e furadeiras, a pintar paredes e, nos próximos meses, vai descobrir como se faz uma instalação elétrica. Seu primeiro desafio manual foi bordar um tapete de arraiolo, tarefa que levou três meses para ser concluída. "Antes, isso seria impensável. Para que fazer um tapete se eu posso ir até a loja e comprar um igual?", diz Valéria. Mas comprar um artigo como esse, por impulso, está longe de trazer a satisfação de fazê-lo. "Há o prazer de criar com as próprias mãos e de decorar a casa com algo que tenha sua identidade", afirma. Há também a alegria, segundo ela, de ter aprendido um novo ofício. Desde que passou a prestar mais atenção no uso do próprio tempo, Valéria só investe seu dinheiro no que acredita que valha a pena. Gasta no cinema, na happy hour, no tai chi chuan. Economiza nas roupas e nos objetos. Também decretou o tempo livre para simplesmente fazer nada. É o direito ao ócio criativo, tão bem defendido pelo pensador italiano Domenico De Masi.

Descartar o supérfluo, como procura fazer Valéria, é um dos mandamentos da nova frugalidade. Ele está ligado, como tantos outros, ao conceito de simplicidade voluntária, que define a tentativa de viver com mais tempo e menos necessidades. Esse conceito constitui um dos pilares da ideologia do novo milênio e tem sido muito útil quando se trata de lidar com os efeitos mais ásperos da crise econômica, sobretudo nos Estados Unidos.

Uma pesquisa da Booz & Company feita com mil consumidores nos EUA mostra que o orçamento apertado obriga a rever as escolhas de consumo. Segundo o estudo, caso a crise na economia se agrave – cenário inevitável nos próximos seis meses para dois terços dos entrevistados –, o aperto nas despesas começaria com cortes nos jantares fora de casa. Supondo uma diminuição de 10% na renda, 62% dos entrevistados disseram que deixariam de ir a restaurantes caros. Os cafés para gourmets, como os da rede Starbucks, um dos símbolos da nova economia global, seriam descartados por 35% dos entrevistados. Os bares perderiam 32% do movimento. Quase metade dos americanos que responderam à pesquisa reduziria as despesas com entretenimento, o que inclui concertos, jogos e exposições.

Além dos cortes pontuais, a pesquisa da Booz & Company revela uma mudança de valores. "A maioria dos entrevistados afirma que não voltará ao padrão de consumo perdulário anterior", diz K.B. Shriram, um dos responsáveis pelo estudo. Entre as permutas que os consumidores se dizem dispostos a fazer está a troca de carros luxuosos que gastam muito combustível, como os SUVs, por carros menores, menos poluentes – e, se possível, híbridos, com propulsores a energia elétrica. Um em cada quatro entrevistados afirma que pretende adiar a compra do carro novo – enquanto 15% dizem estar trocando o carro que já têm na garagem por um modelo mais barato.

Outro levantamento, feito pelo Boston Consulting Group (BCG), que afirma ter ouvido 21 mil pessoas em 14 países, incluindo Brasil, China, Estados Unidos, França, Itália e Inglaterra, conclui que o atual momento da economia faz com que os consumidores revejam o orçamento, "em busca de promoções, descontos e das melhores pechinchas". Segundo Catherine Roche, sócia do BCG em Düsseldorf, é provável que a crise leve mais gente a praticar o que ela chama de "arte do trading down", o que significa adquirir produtos e serviços com bom valor agregado, mas a preços baixos. "Consumidores de todos os mercados começaram a adotar um novo modelo de compras: ao mesmo tempo que preferem lojas de descontos para abastecer a despensa e procuram economizar cada centavo, investem significativamente em categorias que ofereçam gratificação emocional", diz Michael Silverstein, autor do relatório e também do livro Treasure hunt: inside the mind of the new consumer (algo como Caça ao tesouro: por dentro da mente do novo consumidor), lançado em 2006.

A gratificação emocional a que Silverstein se refere não tem nada a ver com o consumo de itens de luxo. Pelo contrário. Depois de seis anos de crescimento ininterrupto, esse mercado finalmente dá sinais de que entrará em recessão em 2009. Uma pesquisa da consultoria americana Bain & Company divulgada em novembro previa um crescimento de apenas 3% para o mercado de luxo em 2008. O número mostra a fragilidade de um setor antes considerado imune aos solavancos da economia – e às variações no humor de consumidores. Enquanto o mundo se deslumbrou com a opulência dos últimos cinco anos, o mercado de luxo cresceu a uma média de 10%. Diante do brilho perdido de joias, roupas e carros caros, o consumidor de bolso vazio passou a não ter opção exceto pensar racionalmente no destino de seu dinheiro. Apartamentos vendidos a exorbitantes US$ 150 milhões, no exclusivíssimo 15 Central Park West, em Nova York, um condomínio inspirado nas luxuosas construções da cidade na década de 1920, podem ter virado miragem depois que as Bolsas de Valores de todo o mundo esfacelaram fortunas.

No lugar das moradias opulentas, com aposentos até para os motoristas particulares, entra em cena uma nova tendência: o movimento "small house" (casa pequena, em inglês). Há cinco anos, quando o mercado imobiliário americano estava aquecido, a ideia de morar numa casa apertada não passava nem pela cabeça dos menos abastados. Com longos prazos de financiamento e juros baratos, os americanos povoavam os subúrbios com casarões cada vez maiores. A casa média americana cresceu 40% de tamanho entre 1982 e 2004, segundo o U.S. Census Bureau. O tamanho da moradia para uma família passou de 160 metros quadrados para 220 metros quadrados. Como um americano seria capaz de viver num espaço do tamanho de um quarto?

O conceito de moradia simples e descomplicada, no entanto, ganhou adeptos. O estouro da bolha imobiliária americana deu sentido a uma ideia que só fazia sentido a quem não tinha acesso ao farto crédito imobiliário. Um grupo de ativistas lançou a Small House Society (Sociedade da Casa Pequena) para promover os benefícios ecológicos e econômicos das minimoradias. Os modelos têm preços médios de US$ 40 mil e tamanhos que variam de 6 a 15 metros quadrados. "A questão do espaço é relativa", disse em entrevista a ÉPOCA o ativista americano Gregory Johnson, um dos fundadores do movimento. "Você guarda apenas os objetos de que precisa e perde menos tempo com arrumação".

Johnson vive em uma moradia de 6,5 metros quadrados no Estado de Iowa, nos Estados Unidos. A televisão dá lugar a um notebook, alimentado pela bateria. Lâmpadas e outros equipamentos elétricos também funcionam com bateria. A coleção de discos e CDs foi parar dentro um tocador MP3 portátil. A Small House Society diz que as moradias são ecologicamente corretas porque não precisam de energia elétrica e consomem menos material de construção. "E o mais importante é que a casa vive para você e suas necessidades, e não o contrário", diz Johnson.

A filosofia por trás do movimento "small house" pode ter origem no pensamento de Sêneca (4 a.C. a 65 d.C.). Ele era rico, mas não desfrutava o conforto que seu dinheiro podia pagar. Bebia apenas água e dormia sobre um colchão duro. "O sábio não está obrigado à pobreza, mas experimentar o inverso nos torna mais humanos", dizia. Na infância, Sêneca foi enviado a Roma para estudar oratória e filosofia. Em pouco tempo, chegou ao Senado. Foi durante seu exílio na Grécia que escreveu seus principais tratados filosóficos, entre eles Consolos, em que fala dos ideais estoicos clássicos, da renúncia de bens materiais e busca da tranquilidade da alma, o que se consegue com conhecimento e contemplação. Algumas máximas de Sêneca parecem fazer mais sentido hoje do que quando ele as escreveu, no século I: "Pobre não é aquele que tem pouco, mas antes aquele que muito deseja"; "A utilidade mede a necessidade: e como avalias o supérfluo?"; "Nunca ninguém enriqueceu com dinheiro" ou "Nenhum bem sem um companheiro nos dá alegria". Sêneca pode ter exagerado na forma como condenava as comodidades da civilização, mas, se bem interpretado, seu alerta contra a ostentação e o desperdício poderia ter evitado dores de cabeça a quem se deixou levar pela ganância.

Ainda que a crise financeira atual não exija privações como as propugnadas por Sêneca, seus efeitos podem ser pedagógicos. "Vivemos além do necessário em uma sociedade de desperdício", afirma o filósofo Mário Sérgio Cortella. "Viver com menos pode significar ter uma vida mais plena." Para Roberto Romano, a valorização de uma vida simples ganha impulso com valores como a sustentabilidade, que se tornou um mantra para a preservação do planeta. Segundo Romano, os próximos lemas da sociedade serão "pouco é bom" e "não fazemos qualquer negócio".

O americano David Bruno é hoje o maior divulgador do lema "pouco é bom". Ele ficou famoso por manter um blog no qual vai se despedindo de tudo o que juntou na vida – até que consiga viver com apenas 100 objetos (leia nas próximas páginas). A visão é parecida com a do Movimento Viridiano, um grupo de ecologistas (viridiano vem de verde) criado há dez anos pelo jornalista Bruce Sterling, de São Franciso. Sterling prega a valorização dos objetos que têm maior presença no nosso dia a dia, caso do colchão, onde todos deveriam passar oito horas diárias, ou um terço da vida. O mesmo vale para os sapatos e a cadeira de trabalho, que devem ser confortáveis o suficiente para não causar incômodo algum. Em relação ao automóvel, a filosofia viridiana afirma que ele deve ser relegado a um segundo plano, uma vez que é usado em deslocamentos curtos, poucas vezes ao dia. Claro que isso não se aplica aos moradores de cidades com engarrafamentos permanentes, como São Paulo. Em situações assim, o que os estudiosos recomendam não é comprar um carro mais confortável, e sim livrar-se dele. "Depois que a pessoa percebe que o carro é apenas uma mercadoria para mobilidade, vale a pena avaliar se é viável andar de táxi ou encontrar uma alternativa de transporte", diz o mineiro Ricardo Neves, autor do livro Novo mundo digital e consultor especializado em inovação.

Abrir mão do carro ou de outros bens que pareciam imprescindíveis pode ser mais fácil do que parece. Uma reportagem recente da revista New York mostra que é possível ter uma vida até melhor que a atual sem fazer cortes dolorosos nas despesas. Afinal, se todos reduzirem as despesas abruptamente, a crise só vai piorar. A reportagem mostra que há como fazer substituições inteligentes, sem abrir mão dos prazeres que exigem um orçamento generoso. Entre as sugestões mais curiosas para momentos de austeridade está "reciclar antigos relacionamentos". Para quem está solteiro, investir num "ex" em vez de procurar outros parceiros pode significar uma economia de até US$ 2.400 (cerca de R$ 5.800) por ano. Isso porque iniciar um novo romance custa caro. A fase da conquista pede jantares e presentes chamativos. Reiniciar um romance do passado não exige tanto. Outra sugestão da New York é cuidar das crianças em grupo. Em vez de pagar até R$ 40 por hora para uma babá sem nenhuma garantia de que ela cuidará bem das crianças, é cada vez mais comum os pais se revezarem para cuidar também dos filhos dos vizinhos.

Assim como nos jantares em grupo da "turma da laje", do Morumbi, em São Pulo, as horas gastas em programas domésticos tendem a ser mais recompensadoras. Vasculhar o guarda-roupa com amigos pode ser tão divertido quanto econômico. No Brasil, já existem grupos de mulheres que se reúnem só para trocar roupas. Com atitudes assim se podem enfrentar os novos tempos de austeridade sem perder o estilo.

ESCOLHAS - Um símbolo para cada era

As prioridades de consumo retratam as realidades econômica, social e cultural de cada civilização. Da propriedade privada ao iPhone, seis itens que resumem a história

Propriedade privada
Há 10 mil anos, a invenção da agricultura transformou a humanidade. Povos puderam se fixar em regiões onde havia recursos. Surgiu o conceito de posse e do valor comercial da terra e dos bens produzidos

Dinheiro
Sua adoção padronizou o sistema de trocas de produtos e impulsionou o comércio. As moedas mais antigas do mundo foram cunhadas na China, há 3 mil anos. As cédulas só começaram a ser usadas no século IX

Metais preciosos
A partir do século XVI, os europeus passaram a buscar metais preciosos e especiarias em regiões remotas do planeta. As grandes navegações definiram um novo mapa-múndi, dando início à era da globalização

Moda
Vestes feitas de pele de animal já eram usadas por homens das cavernas, mas coube à indústria da moda transformar roupa em sonho de consumo. No século passado, estilistas elevaram o vestuário à categoria de arte

Carro
O Ford T é o símbolo da segunda revolução industrial. A Ford criou um sistema de produção em série para fabricar o primeiro veículo popular da história. Os carros são mais que objetos do desejo. Os de luxo simbolizam poder

Celular
Com o iPhone, que combina telefonia e internet, além de permitir comprar pela rede, o mundo globalizado se torna também portátil. A Apple vendeu 13 milhões de aparelhos desde seu lançamento, em junho de 2007

A epidemia do consumo e seu tratamento

O escritor John de Graaf provoca os consumistas ao compará-los com doentes

A teoria segundo a qual o consumismo seria uma espécie de doença contagiosa foi estabelecida pelo trio John de Graaf, David Wann e Thomas H. Naylor a partir de uma constatação do psicólogo britânico Oliver James, que afirma existir uma correlação entre a estimulação artificial das necessidades de consumo e as taxas mais elevadas de transtornos mentais. Para os teóricos da affluenza, essa epidemia consumista é provocada pela obsessão das sociedades desenvolvidas em atribuir valores elevados às posses, à aparência e à fama.

Para Graaf, a crise econômica pode colocar o consumidor diante de uma opção descartada durante toda a última década de crescimento econômico. "Chegou a hora de entender o recado. Não podíamos simplesmente crescer para sempre", diz o escritor.

Para ele, não teremos como escapar da frugalidade. "Os problemas da economia chegarão ao consumo pessoal. Com a crise, precisaremos gastar com o que eu chamo de consumo público: infraestrutura, escolas, saúde. O aumento dos gastos do governo, que serão necessários para levantar a economia, nos levará à inflação. Isso fará as pessoas consumir menos".

SINTOMAS CURA
1 Acreditar que a festa vem junto com o vestido de festa

2 Estar disposto a pagar mais por uma camisa de marca

3 Não acreditar que existe diversão boa e gratuita

4 Comprar um utilitário esportivo para nunca andar no campo

5 Preferir estar no shopping neste exato momento
1 Desconfiar de quem tenta vender desejos fora de hora

2 Alguns luxos são ótimos, mas não precisam custar tão caro

3 Comprar um guia da cidade e conhecer seu bairro a pé

4 Calcular cada centavo gasto pelo potencial de utilidade

5 Ficar em casa para brincar com os filhos ou reunir os amigos

CONFORTO - A importância do colchão

O movimento viridiano prega a valorização da qualidade dos objetos que usamos por mais tempo no dia a dia

Gaste mais com a cama, os sapatos e a cadeira de trabalho...
Ao longo do dia, passamos longas horas calçados, sentados ou dormindo. Quanto mais conforto nesses itens, maior a qualidade de vida

...e menos com o carro
Na visão do movimento viridiano, gastamos tempo demais na escolha e dinheiro em excesso na compra do carro – ferramenta que em geral usamos por poucas horas do dia

 

DESAFIO - Ele quer viver com 100 coisas

A luta de David Bruno para se livrar do supérfluo faz sucesso na web

Numa tarde de verão, o americano David Bruno olhou a própria casa com certo incômodo. Viu coisas que julgava inúteis se acumulando pelos cantos. Havia um autorretrato em óleo. Um chapéu de palha. Chinelos Croc. "Devemos usar as coisas, em vez de apenas ser donos delas", escreveu Bruno no site que criou para registrar sua luta contra o exagero no inventário pessoal. "Essa é a minha contribuição para a luta contra o consumismo". O esforço, denominado "Desafio das 100 coisas", consiste em viver um ano com apenas 100 objetos. Para isso, usa a internet para perguntar a pessoas do mundo inteiro quais itens são realmente necessários. "Você precisa de quantas calças jeans?", escreveu num post. Ele tem três, mas acabou convencido de que duas seriam o bastante. Pelas regras do desafio, os objetos comuns da casa que ele divide com a mulher e as duas filhas – móveis, eletrodomésticos, um piano, a televisão – estão de fora da conta. Ele também não economizará meias e cuecas – uma concessão à higiene pessoal, de acordo com o próprio Bruno. Seu guarda-roupa tem dez camisetas, dez camisas, alguns shorts de corrida e um terno completo. "Espero mostrar ao americano médio que ele não precisa de toneladas de quinquilharias para viver uma vida boa". Abaixo, algumas coisas de que Bruno se livrou.