Imprimir esta página

Médium, eu? Pressentimentos e sonhos

  Iara Biderman - Revista Cláudia

Você chega a um lugar desconhecido, conversa com pessoas que nunca viu, mas tem a nítida sensação de já ter vivido um tempo atrás essa mesmíssima situação. Ou então, minutos antes de a campainha tocar, sabe com certeza absoluta que alguém não esperado chegará à sua porta. Truques da mente ou mensagens do além?

Muita gente acredita que a mediunidade é um fenômeno que ocorre apenas com alguns poucos eleitos e que o médium é sempre e exclusivamente quem manifesta dons de certo modo espetaculares ou assombrosos. Outros nem sequer admitem a existência de coisas além daquelas que os nossos sentidos e pensamento racional podem perceber. Porém, céticos radicais à parte, quase todos nós já passamos por experiências que podem ser chamadas de mediúnicas.

Todo mundo tem a capacidade de sintonizar freqüências não captadas pelos cinco sentidos. Essas freqüências são uma forma de eletricidade sutil. Como nosso corpo é composto de 70% de água, ótimo condutor de eletricidade, uma hora ou outra entramos em contato com essas energias e isso nada mais é que a mediunidade, mesmo que em levíssima potência", diz Waldemar Falcão, autor de ENCONTROS COM MÉDIUNS NOTÁVEIS. Falcão, que além de escritor é músico e astrólogo, acha que em tese somos todos médiuns, de maneira explícita ou latente, em maior ou menor grau (este último caso mais sutil ele chama de mediunidade "feijão-com-arroz", categoria na qual se inclui).

A médium Maria Sílvia Eustáquio entende que a possibilidade de entrar em contato com outra dimensão da realidade é inata ao ser humano, e nesse sentido podemos dizer, sim, que somos todos sensitivos. Mas, na prática, o termo é usado para designar aquelas pessoas que têm uma percepção muito mais acentuada. "A proposta delas é realmente intermediar o contato e a comunicação entre o nosso mundo terreno e o espiritual. Para a maioria, a função da mediunidade é facilitar o crescimento e a busca do equilíbrio", explica. Esse tipo de médium que se destaca dos comuns dos mortais existe desde que o mundo é mundo. São aqueles que entram em um estado alterado de consciência, no qual se comunicam com seres que morreram ou da natureza. "Os xamãs faziam isso, os sacerdotes da religião do antigo Egito ou as pitonisas dos oráculos gregos também", explica o psiquiatra Frederico Camelo Leão, diretor clínico da Casa André Luiz e membro do Núcleo de Estudos dos Problemas Espirituais e Religiosos do Instituto de Psiquiatria da USP.

Entre as religiões mediúnicas mais conhecidas estão o espiritismo, o candomblé e a umbanda. As mais antigas são o hinduísmo e o taoísmo, segundo Ronie Lima, autor de MÉDIUNS DO ESPAÇO. Ele também considera os milagres realizados por santos católicos ou as premonições dos profetas do Antigo Testamento como manifestações de mediunidade, embora não sejam reconhecidas como tais pelo judaísmo, cristianismo e islamismo. No Ocidente, a não-aceitação religiosa dos médiuns foi reforçada pelo meio cultural. O iluminismo (movimento intelectual dos séculos 17 e 18, caracterizado pela hipervalorização da razão) rejeitou todo tipo de fenômeno que escapasse às explicações racionais. Nessa época, as manifestações mediúnicas começaram a ser tratadas como patologias psíquicas. Por isso, até hoje muitas pessoas que têm o dom acentuado e inato sofrem e sentem-se extremamente confusas, achando que estão ficando loucas. Outras simplesmente ignoram e passam batido por experiências mais espirituais.

Mas o psiquiatra Frederico Leão acredita que a situação atual é outra. Universidades como Standford, Harvard e Duke, nos Estados Unidos, ou a USP, no Brasil, estão produzindo trabalhos científicos que apontam para duas evidências: a de que a mediunidade se destaca das patologias e a de que pode ser usada efetivamente para obter cura e alívio de sofrimento", conta o psiquiatra.

Os médicos têm instrumentos para diagnosticar manifestações psíquicas e diferenciá-las de outros eventos, como a mediunidade. Mas, para nós, leigos, não é tão fácil saber se coisas estranhas" que vivenciamos são manifestações do médium latente em todos nós ou de desequilíbrio mental. Em uma análise simplista, podemos dizer que alguns fatores, como uma vida desestruturada, sinalizam mais um problema psíquico e menos uma eventual sensitividade - afinal, os médiuns têm capacidade de organizar o seu dia-a-dia, diferentemente de alguém que está sofrendo alucinações. Mas nada é tão simples assim. Hoje em dia, poucas pessoas têm uma vida realmente estruturada e, como uma sensibilidade maior em certa medida desorganiza o cotidiano, fica mais complicado diferenciar quais são os limites da psiquiatria e da espiritualidade", diz Frederico Leão. A isso soma-se a dificuldade para lidar com o preconceito, ainda comum, e com os obstáculos internos. "Ninguém gosta de passar por experiências sobre as quais não tem controle, e a maioria teme o novo, o desconhecido. Por isso, a tendência é negar o que está acontecendo", explica o psiquiatra.

A publicitária Carolina Fernandes, por exemplo, está aprendendo a lidar com suas premonições, mas, quando sente" que algo vai acontecer, sua primeira reação é não acreditar na sua intuição. "Fico achando que é invenção da minha cabeça", conta. Às vezes não dá para negar a experiência. "Uma vez, sonhei com uma colega grávida. Ela chegava ao escritório, distribuía bombons para todos e contava que o bebê era uma menina. No dia seguinte, cheguei ao trabalho e aconteceu exatamente como no meu sonho, as mesmas situações, as mesmas palavras", lembra Carolina. Há alguns anos, ela começou a freqüentar um centro espírita para estudar e entender os fenômenos que vivenciava e saber lidar melhor com eles. Carolina não se considera uma médium e, hoje, está convencida de que suas premonições e sonhos são manifestações naturais, que podem ocorrer com qualquer um. "Já sei levar isso numa boa e comento naturalmente com as pessoas. Claro que não vou falando para todo mundo, com gente que não acredita nem vale a pena conversar. Mas também, se eu falar e a pessoa achar que eu sou louca, não estou nem aí, não me incomoda", afirma. Sábia decisão. Afinal, se podemos ser todos médiuns light, nada melhor do que aproveitar mais essa possibilidade de nossas vidas com leveza.

Muito além da realidade

A mediunidade pode se manifestar sob diferentes formas. Estas são as mais comuns:

VIDÊNCIA A pessoa vê coisas que não podem ser percebidas pelo sentido natural da visão no ambiente em que está, no espaço (em um lugar onde ela não está fisicamente) ou no tempo (coisas que aconteceram ou vão acontecer). Pode ser chamada de clarividência, especialmente quando as imagens são muito nítidas.

AUDIÇÃO A pessoa ouve vozes que não vêm do exterior ou que os outros não conseguem ouvir.

PSICOGRAFIA O médium escreve textos ditados por espíritos. Pode se manifestar como escrita mecânica (escrita automática), semimecânica (o pensamento acompanha a escrita) ou intuitiva (o pensamento vem antes do ato de escrever).

PSICOPICTOGRAFIA É a execução de quadros, que ocorre de forma similar à psicografia.

PSICOFONIA OU INCORPORAÇÃO O espírito se comunica por intermédio de quem o recebe. Na maioria das vezes, o médium está consciente e transmite o pensamento que recebeu com as próprias palavras, mas ocorre também de adquirir a voz e os gestos do espírito.

FORTES INDÍCIOS

Sinais precursores de experiências mediúnicas

Ter visões e sonhos cada vez mais perfeitos e claros
Ouvir vozes, internas ou externas
Sentir inchar os pés e as mãos
Perceber ruídos que não são audíveis para os outros
Sensações de torpor ou vertigem sem causa aparente
Rigidez muscular
Frio e arrepios repentinos
Falta de ar
Sonhos, intuição, inspiração

Até que ponto esses eventos são de outra dimensão

SONHAR é uma forma básica de contato com outras dimensões da realidade - ou seja, de mediunidade -, segundo alguns estudiosos, como o escritor Waldemar Falcão. Mas a questão não é consenso entre os especialistas. Para o psiquiatra Frederico Leão, muitos fatores interferem no conteúdo dos sonhos: vivências físicas (sentir uma dor muscular ou ouvir um barulho, por exemplo), problemas do cotidiano mal elaborados, desejos não realizados. "Há também alguns sonhos claramente premonitórios, mas o terreno é muito movediço para se confiar neles logo de cara", diz Frederico.

A INTUIÇÃO é uma percepção da realidade que não passa pelos processos racionais, como bem formulou o cientista Albert Einstein: "Penso 99 vezes e não chego a nada. Paro de pensar e me ocorre uma coisa nova. A isso chamo de intuição". Do ponto de vista espiritual, é uma percepção da verdade universal acessada, vez ou outra, por todo mundo. De acordo com o espiritismo, é uma forma mediúnica que podemos utilizar em qualquer circunstância. "Todos nós somos capazes de desenvolvê-la, em alguma medida, e uma maneira de fazer isso é cultivar o autoconhecimento", diz a médium Maria Sílvia Eustáquio.

A INSPIRAÇÃO, conforme os especialistas, é um dom muito próximo da vivência mediúnica. Quando os poetas gregos invocavam as musas, estavam pedindo ajuda aos espíritos da poesia, música etc. para comunicar, neste mundo, verdades transcendentais. E o médium é justamente esse canal de comunicação entre diferentes planos da realidade.